


Oração da Mãe Menininha
(Dorival Caymmi)
Ai! minha mãe
minha ‘’mãe menininha’’
ai! minha ‘’mãe
menininha’’ do Gantois
- a estrela mais linda, hein?
- tá no Gantois
- a beleza do mundo, hein?
- tá no Gantois
- e a mão doçura, hein?
- tá no Gantois
- o consolo da gente, ai?
- ta no Gantois
- a oxum mais bonita, hein
- ta no gantoi
Olorum que mandou
essa filha de oxum
toma conta da gente
e de tudo cuida
Olorum que mandô-ê-ô
ora-iê-iê-ô.

As Mil e Uma Noites 
A arte de amar é a arte de não deixar que a chama se apague. Não se deve deixar a luz dormir. É preciso se apressar em acordá-la (Bachelard). E, coisa curiosa: a mesma chama que o vento impetuoso apaga volta a se acender pela carícia do sopro suave...
"As mil e uma noites" são uma estória da luta entre o vento impetuoso e o sopro suave. Ela revela o segredo do amor que não se apaga nunca. Um sultão, descobrindo-se traído pela esposa a quem amava perdidamente, toma uma decisão cruel. Não podia viver sem o amor de uma mulher. Mas, também, não podia suportar a possibilidade da traição. Resolve, então, que iria se casar com as moças mais belas dos seus domínios, mas depois da primeira noite de amor, mandaria decapitá-las. Assim o amor se renovaria a cada dia em seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de infidelidade que pudesse apagá-lo. Espalham-se logo, pelo reino, as notícias das coisas terríveis que aconteciam no palácio real: as jovens desapareciam, logo depois da noite nupcial. Sherazade, filha do vizir, procura então o seu pai e lhe anuncia sua espantosa decisão: desejava tornar-se esposa do sultão.
O pai, desesperado, lhe revela o triste destino que a aguardava, pois ele mesmo era quem cuidava das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível.
A forma como o texto descreve a jovem Sherazade é reveladora. Quase nada diz sobre sua beleza. Faz silêncio total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros de toda espécie, que havia memorizado grande quantidade de poemas e narrativas, que decorara os provérbios populares e as sentenças dos filósofos.
E Sherazade se casa com o sultão. Realizados os atos de amor físico que acontecem nas noites de núpcias, quando o fogo do amor carnal já se esgotara no corpo do esposo, quando só restava esperar o raiar do dia para que a jovem fosse sacrificada, ela começa a falar. Suas palavras penetram os ouvidos virginais do sultão. Suavemente, como música. O ouvido é feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A fala é masculina, algo que cresce e penetra nos vazios da alma. Segundo antiquíssima tradição, foi assim que o deus humano foi concebido: pelo sopro poético do Verbo divino, penetrando os ouvidos encantados e acolhedores de uma Virgem.
O corpo é um lugar maravilhoso de delícias. Mas Sherazade sabia que todo amor construído sobre as delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo tenha se esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser decapitado pela madrugada: não é eterno, posto que é chama. E então, quando as chamas dos corpos já se haviam apagado, Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia. Cada estória contém uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um só orgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela. Tão bela. Bela como nenhuma outra. Porque uma pessoa é bela, não pela beleza dela, mas pela beleza nossa que se reflete nela...
Conta a estória que o sultão, encantado pelas estórias de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites, eternamente e um dia a mais. Na milésima segunda noite Shariman declarou que não saberia viver sem suas histórias e seu amor. Sherazade e o sultão foram felizes por muitos e muitos anos. Não se trata de uma estória de amor, entre outras. É, ao contrário, a estória do nascimento e da vida do amor. O amor vive nesse sutil fio de conversação, balançando-se entre a boca e o ouvido. É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsá-lo sem argumentos e contra-razões.
Nada mais fatal contra o amor que a resposta rápida. Alfange que decapita. Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda são virginais: nunca foram penetrados. E é preciso saber falar. Há certas falas que são um estupro. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de advinhar: advinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro.
As mil e uma noites são a estória de cada um. Em cada um mora um sultão. Em cada um mora uma Sherazade. Aqueles que se dedicam à sutil e deliciosa arte de fazer amor com a boca e o ouvido (estes órgãos sexuais que nunca vi mencionados nos tratados de educação sexual...) podem ter a esperança de que as madrugadas não terminarão com o vento que apaga a vela, mas com o sopro que a faz reacender-se.
Rubem Alves




Lancelot e Guinevere
A lenda do Rei Arthur, seus cavaleiros da Távola Redonda e o mago Merlin povoam o imaginário de milhares de pessoas há séculos. A origem do mítico rei é tema de debate acadêmico, de roteiros de cinema e de um sem número de romances. Os mais conhecidos entre os romances que exploram as lendas arturianas são As Brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley), Rei Arthur (Alan Massie) e a trilogia Rei do Inverno, O Inimigo de Deus e Excalibur (Bernard Cornwell). No entanto, nada chama mais atenção ou causa mais comoção popular entre os admiradores das lendas arturianas do que o romance proibido entre Lancelot, o primeiro cavaleiro do rei, e Guinevere, a esposa de Arthur. As versões da lenda de Lancelot são contraditórias. No século XII, o escritor suíço Ulrich von Zatzikhoven, é o primeiro a usar para o jovem cavaleiro o codnome Lancelot do Lago. Na versão desse autor, Lancelot era o filho do rei Ban de Benoic e após a morte de seu pai, é criado pela dama do lago, que, quando ele se torna adolescente, o manda procurar Arthur e oferecer-se como cavaleiro. Lancelot então passa a lutar em nome da rainha, como seu campeão, mas não há qualquer referência a um caso de amor entre os dois. Quem cria o romance adúltero é outro escritor Chrétien de Troyes. Na versão desse autor, que se tornou bem mais popular, Lancelot e a rainha vivem uma história de amor proibida, porém intensa, pois Guinereve é a esposa do rei que ele jurou servir.




Tristão e Isolda
A lenda de Tristão e Isolda é de origem celta e remonta ao século IX. Diversas versões são conhecidas na Itália, Inglaterra, Irlanda e outros países europeus. A mais popular mistura elementos da cultura celta com as novelas de cavalaria medievais e diz que Tristão é um guerreiro que viveu na época arturiana. Sobrinho do principe Mark, da Cornualha (uma região britânica), ele recebe a missão de ir buscar a noiva de seu tio, Isolda, filha de um rei vizinho. A mãe de Isolda, por sua vez, entendia de artes mágicas, e prepara uma poção do amor para que a filha beba na noite de núpcias e assim aceite o casamento de conveniência com o príncipe Mark. Durante a viagem, uma criada serve por engano a poção para Tristão e Isolda, que se apaixonam perdida e loucamente. Ainda assim, o jovem guerreiro obedece o tio e leva Isolda para casar-se. No entanto, um não consegue viver longe do outro. Tornam-se amantes e se encontram às escondidas nos bosques. Um dia, não aguentam mais e fogem. Mark manda persegui-los e eles passam anos e anos fugindo e vivendo seu amor clandestinamente. Existem adaptações da antiga história que diz que, quando o efeito da poção mágica passou, Tristão abandonou Isolda e voltou para a Cornualha, onde pediu perdão ao tio. Isolda então, foi morta para celar a reconciliação dos dois. Outras versões contam que os dois amantes foram capturados e mortos a mando do príncipe traído. A lenda de Tristão e Isolda já foi adaptada diversas vezes no cinema. Em 1909, o filme mudo francês Tristan et Yseult é o primeiro. Depois, em 1948, outra adaptação recebe o título em português de O Eterno Retorno, dirigido pelo francês Jean Delannoy. Em 2006, Ridley Scott também produz sua versão da lenda.




Abelardo e Heloísa
O casal existiu de fato. No século XII, na França. O túmulo onde repousa seus restos mortais é uma das atrações turísticas do cemitério de Pére Lachaise. Diz a lenda que Heloísa mandou construir o túmulo quando Abelardo morreu, em 21 de abril de 1142. Quando ela morreu, poucos anos depois, pediu para ser enterrada junto ao amado. Ao ser aberto o túmulo, o corpo de Abelardo ainda estava intacto e seus braços abertos, aguardando por ela. A história de Abelardo e Heloísa não deve nada a de Romeu e Julieta, o casal de amantes criado pelo teatrólogo inglês William Shakespeare. Quando os dois se conheceram, Pedro Abelardo era um iminente filosófo admirado por seus alunos e tinha 40 anos. Heloísa era a jovem sobrinha de um nobre de Notre Dame e tinha 18. A filosofia e a literatura clássica aproximou os dois. Abelardo tornou-se professor de Heloisa. Discutiam diversos temas polêmicos para o período, tinham uma noção clara do amor e acreditavam que ele superava em muito o mero desejo físico. Tornaram-se amantes, mas eram sobretudo almas que se completavam nas ideias. O romance proibido, pois a família de Heloísa queria casá-la com um nobre, era acobertado por uma criada da confiança da jovem dama. Depois de idas e vindas, muitas tentativas para separá-los, o nascimento de um filho e uma fuga digna de roteiro de cinema, finalmente recebem permissão para casar. Na noite de núpcias, o tio de Heloísa invade a residência do casal e manda que seus criados castrem Abelardo. Mais uma vez separados, Heloisa entra para o convento e Abelardo funda um mosteiro. Não podiam mais se falar, mas trocaram cartas apaixonadas que já renderam até tese de doutorado. Aos 63 anos, Abelardo morre e Heloísa então manda construir o imponente mausoléu onde ainda hoje, casais apaixonados fazem romaria.



meu Eu...bjus...

Horas Rubras
Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…
Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas…
Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…
Sou chama e neve branca misteriosa…
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras
Florbela Espanca


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