


Oração da Mãe Menininha
(Dorival Caymmi)
Ai! minha mãe
minha ‘’mãe menininha’’
ai! minha ‘’mãe
menininha’’ do Gantois
- a estrela mais linda, hein?
- tá no Gantois
- a beleza do mundo, hein?
- tá no Gantois
- e a mão doçura, hein?
- tá no Gantois
- o consolo da gente, ai?
- ta no Gantois
- a oxum mais bonita, hein
- ta no gantoi
Olorum que mandou
essa filha de oxum
toma conta da gente
e de tudo cuida
Olorum que mandô-ê-ô
ora-iê-iê-ô.
Frida Kahlo

Nascida a 7 de Julho de 1910, Frida Kahlo é uma das mulheres mais famosas da pintura mundial e sem dúvida uma personagem chave da cultura mexicana. Desde cedo a vida de Frida não foi fácil e pode-se mesmo dizer, que os factos que vamos relatar a seguir parecem indiciar demasiado sofrimento para uma pessoa só. A 17 de Fevereiro de 1925, um acidente mudou radicalmente a sua vida. Acompanhada pelo seu amigo de longa data Alejandro Gomes Arias , o veiculo onde seguiam colidiu contra um autocarro, matando várias pessoas e inflingindo ferimentos noutras.
Após o acidente, Frida foi descoberta meia nua entre os destroços, coberta de sangue e de poeira.
A sua coluna vertebral, costelas, pélvis, clávicula e omoplata foram sériamente afectados no acidente. O seu pé direito foi esmagado e a sua perna direita, já de si afectada pela poliomalite que a atingira na infância (6 anos), ficou partida em 11 lugares.
Para além disso, uma barra de metal entrou pelas ancas e saiu pela vagina provocando danos permanentes a nível abdominal, que a incapacitariam de ter filhos.
Posteriormente, seguiram-se meses longos e dispendiosos de recuperação e terapia. A sua covalescência física envolveu vários meses de imobilidade e até bárbaras operações experimentais a pintora executou.
Pior que o estado físico de Frida, foi o estado mental e de isolamento a que esteve submetida neste período de recuperação.
A solidão afectou-a de sobremaneira e apenas na pintura saíam os seus reais sentimentos.
Guilhermo (Pai) e Matilde (Mãe) gastaram práticamente tudo o que tinham, financiando as operações a que esta se submeteu.
Apesar da situação financeira em se viram, sempre apoiaram Frida e principalmente agora que ela tinha encontrado a sua verdadeira paixão; a pintura.
Um dos elementos que bem demonstra isso, foi o espelho instalado junto da sua cama para permitir que esta pudesse ser o modelo das suas próprias pinturas.
Assim que Frida voltou a andar outra vez, teve a audácia de visitar o já famoso Diego Rivera (crítico e muralista) que conhecera nos tempos de Escola. Desse encontro, Diego não só ficou impressionado com o trabalho de Frida como também com a sua tenacidade, charme e beleza.
A partir daí nasceu uma relação que viria a culminar com o casamento dos dois em Coyoacan a 21 de Agosto de 1929.
A Arte de Diego Rivera
Diego Rivera foi um dos grandes pintores muralistas mexicanos. Nos 10 anos que passou na Europa estudou Goya e El Greco. Conheceu pessoalmente Picasso e Griss e teve uma pequena experiência cubista. Foi na Itália que conheceu os afrescos de Giotto , que lhe serviram de inspiração para a pintura revolucionária e pública que iniciou na sua volta para o México. Rivera só encontrou seu caminho aos 35 anos, quando retornou ao México. O seu trabalho evoluiu do experimental do início do século , para uma técnica própria, com influências das cores de Gauguin e da técnica de Giotto. Os grandes murais, alguns com até 1600 metros quadrados foram sua marca.

A Arte de Frida Kahlo
Frida começou a pintar quase por acaso, quando conheceu Rivera foi estimulada à continuar. Seus quadros tem o fantástico, que muitos procuram enquadrar como surrealista ,o que é um erro. Enquanto os surrealistas pintavam o subconsciente, o escondido, o sonho, o irreal, Frida pinta as emoções que passou em sua vida. A doença sempre esteve presente em sua obra. Dores na coluna por causa do acidente, a poliomielite, abortos , o desejo da maternidade que nunca realizou, as frequentes internações. O fantástico em Frida é o real ,o consciente. A sua pintura é única, é quase uma biografia de paixão e dor. André Breton escreveu: “ A Arte de Frida Kahlo é um garrote em torno de uma bomba”. Frida impressiona! A sua frágil figura contrasta com a força de sua procura por liberdade. A sua fraqueza física não a impediu de lutar contra a doença dos povos, a opressão dos mais fracos. Kahlo é considerada hoje a mais importante artista latino-americana, seus quadros são vendidos por milhões de dólares.

O Final
Frida Kahlo teve complicações circulatórias em sua perna e precisou ser amputada na altura do joelho. Durante os nove meses em que Frida teve hospitalizada (1950), Diego manteve-se sempre a seu lado. Frida Khalo acabaria por socumbir a 13 de Julho de 1954, uma semana após ter feito quarenta e sete anos.

Suas cinzas, conforme seu desejo, estão na “Casa Azul”, hoje Museu Frida Kahlo.
Rivera morre 3 anos depois, em 24 de Novembro de 1957. É sepultado no “Pantéon dos Homens Ilustres”, contrariando seu desejo de repousar junto com Frida Kahlo.
Frida Kahlo e Diego Rivera



Eu...Sua...beijos



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Zélia Gattai Amado

Jorge Amado: marido e mestre

Durante 56 anos, Jorge Amado foi meu marido e meu mestre. O que sei com ele aprendi. Juntos, corremos mundos, percorremos os mais distantes países, os mais belos e estranhos.
Num navio-gaiola, atravessamos a Floresta Amazônica. Numa tenda, em pleno deserto de Gobi, na Mongólia, nos abrigamos de um vendaval de areias escaldantes. Enfrentamos um maremoto numa travessia no Mar do Norte. Num avião Concorde, rompemos a barreira do som. Descobrimos em céus de outros países e em surpreendentes galáxias as mais belas estrelas. Conquistamos amigos, personalidades as mais representativas de nossa era, companheiros maravilhosos.
Em 1947, um novo retrocesso democrático no Brasil, com perseguições, prisões e torturas, nos fez abandonar o país. O Partido Comunista, pelo qual Jorge se elegera deputado federal, foi cassado, seus deputados expulsos do Parlamento e perseguidos. Nossa casa foi invadida e saqueada por policiais. Não havia, pois, condições de continuarmos aqui.
No início de 1948, Jorge partiu para a Europa e eu fui ao seu encontro pouco depois, levando um filhinho de cinco meses. A palavra exílio assusta e entristece, mas Jorge e eu resolvêramos viver em Paris, decidindo enfrentar todas as dificuldades que encontraríamos pela frente, naquele transe do país recém-saído da guerra.
Matriculei-me na Sorbonne e, durante os dois anos que passamos na França, fiz um curso de Civilização Francesa e um curso de Fonética.
Vivemos dois anos em Dobris na Tchecoslováquia, onde nasceu nossa filha Paloma.
Estivemos e conhecemos todos os países de democracia popular, a União Soviética, a Mongólia e a China. Nosso exílio durou quase cinco anos e dele guardo grandes, terríveis e gratas recordações.
Aos 63 anos, escrevi meu primeiro livro de memórias, seguido por dez outros, todos editados por Alfredo e Sérgio Machado, da Record, entre os quais Anarquistas graças a Deus, Chão de meninos, Crônica de uma namorada, Um chapéu para viagem, Jardim de inverno, O segredo da Rua 18, Senhora dona do baile, A casa do Rio Vermelho, Cittá di Roma, Códigos de família, Jorge Amado: um baiano romântico e sensual e Memorial do amor.
Já tínhamos regressado ao Brasil quando Jorge recebeu um convite da Sorbonne para nela receber uma grande homenagem. Ele ficou entusiasmado, embora não estivesse em condições de viajar. Sofrera um infarto e andava atormentado com um grave problema de visão, uma degenerescência senil da retina que lhe dificultava a leitura.
Não adiantaram conselhos para que não viajasse. Resolveu ir e fomos. Ele aproveitaria a ida a Paris para consultar seu oftalmologista, reveria os amigos, mataria saudades e teria a enorme honra de ser laureado por uma das mais importantes universidades do mundo.
Havia, porém, um sério problema a resolver: o do discurso a pronunciar na solenidade da posse. Jorge não estava podendo escrever, mas esse não seria o maior empecilho. Ditaria para mim. O problema mais grave era que ele não estava conseguindo ler. Finalmente, foi encontrada a solução: conhecedora dos segredos da computação, Paloma ampliaria bastante, o mais possível, as letras do texto, facilitando a leitura.
No dia da festa, uma comissão de professores levou Jorge não sei para onde. A sala já estava lotada. Eu, João Jorge e Paloma ficamos na primeira fila, junto ao palco. Ouvimos os primeiros acordes de uma orquestra, dando início à cerimônia. Uma grande porta lateral foi aberta e começaram a entrar os professores envergando suas togas negras com arminho branco nos ombros. Dentro daquela imponente vestimenta, Jorge parecia um gigante. Estava ladeado pela professora e pelo professor que iriam saudá-lo. Adiantei-me, encostei-me no palco e entreguei-lhe o canudo com aquelas enormes folhas de papel nas quais estava o seu discurso.
Quando uma voz solene o anunciou, Jorge dirigiu-se ao microfone. Com a maior tranqüilidade, leu o texto, agradeceu as palavras de louvor que acabara de ouvir. E terminou dizendo: ''Merci beaucoup de tout mon coeur!''
Em agosto de 2001, Jorge partiu para sempre. Nessa viagem, não pude acompanhá-lo. Tudo fora feito para que ele permanecesse ao nosso lado, mas seu coração não resistiu.
Fui convidada a preencher sua vaga na Academia de Letras de Ilhéus e tomei posse a 14 de março de 2002. Depois, aceitei o convite para candidatar-me à sua vaga na Academia de Letras da Bahia. Fui eleita e tomei posse a 18 de abril de 2002.
Consultada e aconselhada por amigos, membros da Academia Brasileira de Letras, a candidatar-me à mesma cadeira 23 que Jorge ocupara durante 40 anos, aceitei o convite, elegi-me e empossei-me no dia 21 de maio de 2002 não para substituí-lo, porque Jorge é insubstituível.
Restava-me repetir as suas palavras pronunciadas na Sorbonne: ''Muito obrigada, de todo o coração!''
Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) 06/07/2005

Para Zélia e Jorge Amado
O redemoinho subia, levantando do chão: poeira, folhas e restos de papéis. Chegava à altura de uma pessoa que tivesse seus um metro e setenta, percorria o caminho do jardim como se caminhasse para se aquietar junto do tronco grosso de uma jaqueira frondosa, perto de um banco decorado com caquinhos de azulejos coloridos. Era como se sentasse à sombra da árvore, descansando do percurso. Logo desaparecia, levando consigo as impressões do ambiente, para ressurgir no dia seguinte com o mesmo comportamento.
- Jorge é você - Zélia sussurrava.
A copa das árvores se mexia.
- Jorge não fique de brincadeiras - ralhava ela - apareça! Os meninos estão dormindo. Pedia Zélia.
- Sabe o que eu soube? Vou lhe dar a notícia em primeira mão: eu também estou indo. E quero segurar em suas mãos para fazer a travessia. Vê pára quieto e me escuta seu pé de vento danado.
Zélia notou o redemoinho parar. As flores recendiam um cheiro adocicado. Então, detrás da jaqueira, saí Jorge como se estivesse ali o tempo todo. O camisão florido, a bermuda e as sandálias. O pequeno chapéu escondendo o rosto.
-Zélia você está bonita. Vamos namorar um pouco?
Pegou as mãos de sua mulher e refez o caminho marcado com lajotas sobre a grama.
-Jorge me conta é bonito lá?
- Só é bonito quando posso espiar você.
-Você não se faça de bobo. Viu algum anjo? Conversou com alguém?
-Não, isso eu não fiz. Encontrei o Carybé que mandou lembranças.
Zélia riu.
-Esse arruaceiro! O que não deve estar aprontando, hein.
-Zélia eu não quero nunca sair desse jardim.
Abraçaram-se.
Paloma acordou para beber água. Verificou aberto o quarto da mãe. Ela deve ter ido dar umas voltas no jardim, pensou. Aproximou-se da janela para certificar-se, vendo a mãe sentada ao banco como sempre fazia quando tinha saudades do pai. Sentiu um aperto no coração. As lágrimas vieram à borda dos olhos, conteve-se.
-Ih, Paloma está na janela.
-Jorge, não é possível!
-Olhe, então. Deve ter acordado para beber água.
Zélia acenou para a filha.
Recebeu a brisa noturna com o aroma próximo do alvorecer. A madrugada se despedia. A conversa feita de silêncio e gesto não se deixava aprisionar com as palavras por melhores arranjadas que estivessem.
-Recebi ontem uma carta para você.
-Para mim? E quem é que escreve para um morto?
-É de um rapaz do Rio. Tomei a liberdade de responder e assinar com seu nome.
-O que dizia?
-Ah, ele quer ser escritor, mandou até um conto anexado à carta.
-Era bom?
Zélia falou acerca do futuro do escritor principiante, de sua esperança que um dia ele conseguisse uma boa editora, etc...
- Jorge eu tenho medo.
-Zélia, medo de quê, mulher. Não há nada para se temer aqui. Só há música e paz. As únicas arengas é o Carybé com um grupo de anjos baderneiros é que apronta. O síndico reclama, mas há promessas de um bloco para eternidade que vem. Então vai ter bastante animação. Não se preocupe. Vou sempre estar por perto.
A luz do dia se infiltrava no horizonte como um filete de água rubra correndo pela borda do mundo, transbordando calor.
-É hora de ir.
*
Paloma se encaminhou com o pote de cinzas para o jardim. O óculo escuro não permitia ver os seus olhos, mas chorava. Despejou junto das flores o seu conteúdo inteiro pelos canteiros. Depois subiu para descansar.
À noite, quando se levantou para beber água, viu dois redemoinhos no caminho do jardim. Não sabe porquê sentiu algo familiar por aqueles pés de ventos. E como não comandasse mais o corpo, ela não sabe por que acenou para os dois.
Lá embaixo Jorge e Zélia sorriram.
http://cativeiroamoroedomestico.blogspot.com/2008/05/o-redemoinho-subia-levantando-do-cho.html

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